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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Maria sai para trabalhar




O quarto ainda está na penumbra e a brisa outonal entra pela janela entreaberta, balançando com suavidade a cortina branca. Maria desperta com o coração disparado, sonhou com um ladrão no jardim interno, pronto para pular a janela. Sonha isso mesmo sabendo das grades. Escuta os calcanhares da filha batendo pela casa. Estende o braço, agarra primeiro o celular, em seguida o remédio para tireoide e a água. Dá um vistaço na conta bancária, nas mensagens, no e-mail profissional e nas notícias. Levanta-se e abre a cortina esperando ver o jasmineiro florir ou a trepadeira encontrar seu caminho. Cuida da higiene com vagar, sempre na mesma ordem, porque na vez em que fez xixi depois de escovar os dentes, não teve trabalho. Nem um mero documento para traduzir. Faz hora até a filha sair, para depois então, preparar o café. Café forte na cafeteira italiana, duas torradas, manteiga boa e uma fatia de queijo cortada ao meio. Estende o jogo americano de palhinha, abre o laptop e aprecia a paz da casa quieta. Uma rotina de segunda a sexta. Veste-se e leva o cachorro para uma volta rápida. Na volta, mais uma xícara de café.
Sai da cozinha para trabalhar. Caminha exatos sete passos e meio e senta-se numa cadeira giratória moderna, em frente à escrivaninha antiga embaixo da estante do avô que não chegou a conhecer. Seu santuário. Espalhados por cima de tudo, os dicionários, livros, carimbos e porta-retratos. Quando cansa a cabeça, descansa olhando as fotos.

Maria não sabe como seria trabalhar com outras pessoas na mesma sala, porque ela não sabe bater papo. Maria não gosta de televisão, nem de séries, menos ainda de novelas. Maria não tem homem, nem mulher. Naqueles sete passos e meio entre a cozinha e o escritório, ela só tem que afagar o cachorro ou trocar uma palavra com a orquídea. Todos os dias ela agradece a profissão que tem, porque sinceramente não sabe o que seria dela se tivesse que abrir a porta e sair. 

[Exercício para PUC-EAD, personagem vai de casa para o trabalho - novembro 2017]

domingo, 15 de outubro de 2017

Mosaicos


Foto de Alison G. Altmayer

MOSAICOS

Ah, se apenas eu tivesse a coragem de dizer o quanto te amo, eu começaria assim: "sabe? ontem sonhei contigo". E quando soubesses o quanto te amo, me esperarias. Me esperarias como no sonho: lá na frente, no altar, com os pés a balançar teu corpo maduro. Minhas mãos entretidas abraçando o buquê, tuas mãos não acharias onde colocar.

E depois que soubesses o quanto te amo, emocionado olharias nos meus olhos límpidos. Meu vestido branco a deslizar com vagar, espalhando as pétalas vermelhas pelos mosaicos portugueses da nave.


Talvez um dia, quem sabe no intervalo ou no cafezinho, eu te diga baixinho: ontem sonhei contigo. 

Miniconto para o Sarau do Amor, junho 2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A casa da gente


Foto by Bulinha
Meu pai dizia que a casa da gente é para ser usufruída, habitada. Cinco anos depois que se aposentou, ele reuniu as filhas e minha mãe para perguntar o que achávamos de ir morar no Cassino. Eu não achava nada, tinha 9 anos e não fazia ideia do que seria morar na praia o ano todo. Para lá nos mudamos em novembro de 1976 – uma casa de tijolo à vista caiado em baixo e madeira em cima, com janelas lembrando as casas da serra.

Cada ambiente tem a presença marcante do meu pai, porque ele foi marcante mesmo. Se você entrasse pela sala, o que não era o hábito, ele estaria sentado na cadeira dura em frente à TV. Na mesinha, um aperitivo enquanto uma partida de futebol de qualquer campeonato passava na TV. Se você chegasse na sala da lareira, ele estaria ali na escrivaninha: lendo, estudando, escrevendo sobre espiritismo ou colocando a contabilidade em dia. Nos invernos dos últimos anos, andaria embrulhado num poncho. A escrivaninha, que quando fiz 8 anos ele me deu de presente de aniversário, ficava no canto dos janelões dando para o jardim verde e florido e para a frente da casa, sem muros nem grades.
     
Poderia calhar de você chegar lá pelas 11h, daí ele já estaria na copa-cozinha, ampla e bem iluminada pela telha transparente. Sentado à mesa, lendo a ZH ou o Agora, beliscando e tomando um vinho tinto. Do outro lado do balcão americano, alguém preparando a comida e cuidando da louça, na pia grudada no balcão que tem as violetas da mana Júlia.

Foto by Tonio
      

Se fosse domingo, ele estaria atrás dessa porta entre a cozinha e a churrasqueira. Desde cedo às voltas com as carnes um tipo para cada filha, neto, genros e eventuais convidados. Ele limpava, temperava e assava ao gosto de quem estivesse para o almoço. Servia um por um, sem se sentar à mesa. Na hora da sobremesa (sempre obrigatória), sim, ele vinha todo feliz, filosofar com a turma reunida.

      




Houve época em que era comum encontrá-lo na garagem para três carros. Lá, com a capota aberta do Jeep antigo, estaria fuxicando no motor ou dando carga na bateria. Senão, lavando o Opala bege. Não gostava de carro zero, uma daquelas manias de português, que só ele entendia. Assim como não gostava de piscina: “pra que? Tem mar perto e água parada cheia de química não presta”.

Há alguns anos, era mais fácil encontrá-lo no quarto da parte térrea. Uma suíte que foi construída quando a mãe teve problemas de coração. Ele não gostava de ficar deitado como um velho, mas chegou um tempo e um momento em que não foi mais possível evitar. Nesse quarto amplo, com janelão para o mesmo jardim verde e florido, eles mantiveram os móveis da década de 70. Foi construído em cima de um algibre, transformado em adega pelo pai, e que só os netos (pelo tamanho, vale dizer) podiam descer pela escadinha de três degraus de madeira, carregando um fio com uma lâmpada na ponta. Desciam aparentando não ter medo do escuro, da umidade, da escada bamba ou da luz trêmula.

Se você tivesse nos visitado nos Natais das décadas de 80 ou 90, teria sentado na mesa da sala de jantar. Éramos a única família que ceava às 8 da noite e abria os presentes às 10 – porque o pai sentia fome cedo e sono, idem. Ele adorava reunir todo mundo. Era engraçado ver ele dançando sozinho no meio da sala, sorrisão aberto, uma mão na barriga, o outro braço bem aberto, o corpo girando, com os pés arrastando um bolero.

Uma escada de madeira levava para a parte de cima: os quartos, os banheiros, um semi-mezanino e o famoso corrimão do corredor. Ali, pendurávamos todas as toalhas de banho e de praia – para desespero do senso estético da mãe e deleite do pai por ter a casa habitada, com vida. Essa escada ganhou um carpete verde no meio dos degraus por conta de um tombo. Meu cunhado, ao descer as escadas com o Mateus ainda bebê no colo, resvalou e caiu.

     
Foto by Bulinha

Dizem que o que mais encanta na casa é o jardim exuberante, os plátanos de 35 anos, a glicínia, os brincos de princesa, o eucalipto e o coqueiro. Dizem que quando você chega na varanda e bate o sino, já sente o bom astral e o acolhimento, oferecido pela casa. Outros gostam dos quadros e da madeira rústica.

Na verdade, eu acredito que todos que chegaram à casa, vinham em busca da companhia dele.
Hoje, aos meus olhos, os jardins secaram, o sino empenou, o vinho secou, o carvão virou cinza, a adega alagou. Não há natais, nem churrascos, nem dancinhas engraçadas, nem tango ou bolero no gramofone, nem filosofia boa à mesa, o cheiro de old spice evaporou. Mas, se você fechar os olhos, bem apertadinho, pode sentir a presença, o cheiro, o abraço e o amor incondicional dele.

Alison Guedes Altmayer
21/07/2016